Domingo, 20 de Julho de 2008

Foi-se o tempo...

Foi-se o tempo em que noite era apenas noite. Em que lua era apenas lua. Música era apenas música. Foi-se o tempo em que cinema era apenas cinema. Em que teatro era apenas teatro. Jantar era apenas jantar. Foi-se o tempo em que fim de semana era apenas fim de semana. Em que sorriso era apenas sorriso. Olhos castanhos eram apenas olhos castanhos. Foi-se o tempo em que abraço era apenas abraço. Em que cheiro era apenas cheiro. Silêncio era apenas silêncio. Beijo, apenas beijo. Foi-se o tempo em que café era apenas café. Em que sabor era apenas sabor. Em que Nutella era apenas Nutella. E “alou”, apenas “alou”. Foi-se o tempo em que tempo era apenas... tempo.


M. M.

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Torre dos Ventos


Do alto da torre lanço palavras ao vento na esperança de que elas cheguem ao mar. Elas se vão, carregadas por Boreas e Eurus. Peço a Notus que me traga o som da sua voz, o perfume dos seus cabelos, o sabor dos seus beijos. Com o olhar perdido na imensidão, me pergunto até que ponto vale a pena sonhar. Elevo minha voz a Astraeus e pergunto quanto mais terei de esperar. Aguardo a resposta de seus filhos em vão. Zephyrus, Eurus... Talvez um pequeno movimento de Notus. Espero. Todos se calam. Apenas silêncio. É certo que o controle do tempo não está nas mãos Astraeus, muito menos de seus filhos. O Senhor dos Mares já sabe do meu tormento. O Grande Senhor também. Não me restam muitas opções. Se a vida é uma longa espera, só me resta esperar.




M. M.

Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Impulso


Caído, não se sentia com forças suficientes para se levantar. Ao contrário da maioria, detentores da carne fraca, que sucumbem às provações carnais, era apenas um espírito fraco que se dilacerava a cada sentimento infeliz, cada acaso que a vida apresentava.

Em certos momentos, um pensamento vazio, em quase toda sua totalidade. Quando carregado, eram pensamentos altamente auto-destrutivos. Sua elaboração onírica estava ligada ao desespero. Havia amor? Havia. O amor pelo sofrimento. Mas o sofrimento também leva ao tédio. Tudo leva. Em algum momento do tempo, o sofrimento vira rotina e a mudança é quase certa. Mudar por mudar, quando se consegue vencer o orgulho, representa outro sofrimento – a destruição do que se sustentou por muito tempo. Necessitava de algo que acontecesse, que o impulsionasse a caminho da mudança. E aconteceu.

A representação e a fala materna constituem um dos destinos da vida humana. Uma palavra que amaldiçoe, proferida pela mãe, certamente terá destino certo no ouvinte-filho. Um conselho ou incentivo de uma mãe ajuda e acaba impulsionando a mudança. Para melhor, claro.

Levantou-se, olhou nos olhos de sua mãe e confessou todas as dores, tormentos, lamentos, a amargura que sentia. Uma confissão. Um abraço. E o tormento nunca mais voltou.



Texto do meu amigo Guilherme Luigi Zanette

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008



Algumas pessoas criam muletas e bengalas sem precisar delas, e acabam se esquecendo de como andar com as próprias pernas...


M. M.

Domingo, 20 de Janeiro de 2008

Ela dança. As palavras pronunciadas por sua língua asquerosa são cobertas de veneno. Seu hálito cega, confunde, causa enjôo. Suas mãos têm espinhos e suas unhas são como pontas de facas. Dos seus olhos negros sempre escorrem lágrimas de sangue daqueles que tiveram o desprazer de contemplá-los. Enquanto ela dança, o seu grito atravessa mares e montanhas, seca árvores e lagos, destrói castelos e sonhos. Visível ou não, está sempre presente. Esconde-se atrás de falsos sorrisos, de palavras amigas, de mãos que prometem ajuda, de lágrimas cênicas. Seu poder é imenso, e há somente uma arma capaz de evitá-la. Chama-se Silêncio. Então, arme-se dele. O que ela não conhece, não pode atingir. Esteja alerta, pois onde menos se espera sua sombra surge. E pode acontecer da Inveja resolver morar dentro de você.



M. M.

Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Um fim

No alto daquela montanha

apenas o vento.

Solidão.

Risco.

Arrisco?

Arrependimento.


Pro alto daquela montanha

futuro,

evolução.

Visão?

Encantamento.


Do alto daquela montanha

olho para trás.

Mágoa, medo,

ressentimento?

Crescimento.


A visão. O vento.

Um mundo imenso.

A descoberta.

O topo. Um limite?

A descida. O fim?

Um fim.


Apenas outro começo.

Arrisco.



M. M.

Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

Ewan

O sol brilha. Mal passa de oito da manhã e Ewan já corre entre as árvores em direção à clareira mais isolada. A grama é baixa e macia, e há uma pedra grande e plana no centro. É o seu lugar preferido, bem no meio da floresta. Os únicos sons são os dos pequenos animais que ali habitam e o leve farfalhar das velhas árvores ao vento.

Depois de ficar um tempo sentindo a quietude daquele lugar, ele pega sua pequena flauta, começa a tocar e tenta chamar os pássaros.

De vez em quando vem um grupo de passarinhos miúdos e alegres voando e bagunçando pelas árvores. Nesse momento, ele acredita que os chamou, que eles estão alegres e se divertindo com sua música. Ele acredita que a música é de verdade, tão consistente que ele poderia segurá-la entre seus próprios dedos. Acredita estar em harmonia com toda a natureza que está ao seu redor. Apenas acredita, de verdade. E se alegra com isso.

E não há ninguém por perto para fazer com que ele deixe de crer. Ninguém para acabar com os seus sonhos e reduzi-los a pó. Então, a fantasia se torna realidade e ninguém tem o direito ou a capacidade de provar que não é real.


M. M.